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Suécia disputa com os EUA a escolha dos novos caças de combate portugueses



O grupo sueco de defesa e segurança Saab admite a possibilidade de Portugal integrar a produção do caça Gripen E, uma das aeronaves apontadas como alternativa para substituir os atuais F-16 da Força Aérea Portuguesa. A proposta surge num momento em que vários países e fabricantes procuram posicionar-se para um futuro processo de aquisição de novos aviões de combate por parte de Portugal.

Em declarações à ‘CNN Portugal’ durante um encontro com jornalistas em Estocolmo, Daniel Boestad, vice-presidente de desenvolvimento de negócios do programa Gripen, afirmou que o país poderá participar na produção da nova geração destes caças. A possibilidade surge sobretudo devido às parcerias industriais já existentes entre a empresa sueca e entidades portuguesas.

O responsável chegou mesmo a apontar um potencial centro de produção: a OGMA – Indústria Aeronáutica de Portugal, em Alverca. Recordando que a OGMA é atualmente um dos principais subcontratados da Saab, Boestad destacou o potencial da empresa portuguesa para integrar a cadeia industrial do Gripen E.

A proposta faz parte da estratégia da Saab para posicionar o Gripen como uma alternativa europeia à substituição da frota de F-16 portuguesa. O modelo segue a lógica já aplicada noutros contratos internacionais, como aconteceu no Brasil, que comprou 36 caças Gripen e assegurou parte da produção local.

Segundo Daniel Boestad, o caso brasileiro demonstra como a participação industrial pode fazer parte de um acordo deste tipo. A Saab sugere que Portugal poderia seguir um caminho semelhante caso opte por esta aeronave.

Nos últimos meses já foram dados alguns passos nessa direção. Foram assinados memorandos de entendimento com várias entidades portuguesas, incluindo a OGMA, a Critical Software e o AED Cluster Portugal, que representa empresas do setor aeroespacial e da defesa.

Com esta abordagem, o grupo sueco procura reforçar o seu argumento de que a escolha do Gripen poderia trazer benefícios industriais para Portugal, incluindo transferência de tecnologia, criação de emprego qualificado e integração numa indústria da defesa em crescimento.

Questionado sobre eventuais contactos com o Governo português ou com o Ministério da Defesa, o responsável da Saab sublinhou que ainda não existe qualquer processo formal de aquisição. “Não há processo nem nada ainda. Quando os portugueses começarem o processo, estaremos lá”, afirmou.

A corrida aos futuros caças da Força Aérea Portuguesa ganhou nova visibilidade recentemente depois de o novo embaixador dos Estados Unidos em Portugal ter defendido, numa entrevista à ‘CNN Portugal’, que o país deveria optar pelos F-35, aeronaves produzidas pela empresa americana Lockheed Martin e consideradas a opção preferida pela Força Aérea.

Confrontado com essa posição, Daniel Boestad respondeu que cabe exclusivamente a Portugal decidir. “É a Portugal que cabe decidir o que Portugal quer comprar. Deixem-nos decidir”, afirmou, sublinhando ao mesmo tempo que o Gripen E representa uma proposta competitiva.

Segundo o responsável, uma das principais vantagens da aeronave sueca está na capacidade de rápida adaptação tecnológica. Boestad descreve o Gripen como um sistema capaz de incorporar rapidamente novas funções e atualizações, algo que considera essencial no atual contexto militar.

Outro argumento apresentado prende-se com a autonomia estratégica europeia. Num cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e por políticas mais protecionistas por parte dos Estados Unidos, a Saab sublinha o facto de ser uma empresa europeia.

Essa ideia tem sido defendida também por várias instituições europeias, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que tem apelado ao reforço da autonomia industrial e militar do continente.

Por fim, a Saab destaca ainda a possibilidade de criar uma ligação operacional entre Portugal, Brasil e Suécia. No ano passado, Portugal adquiriu à empresa brasileira Embraer o sexto avião KC-390 Millennium, um aparelho de transporte militar que está certificado para reabastecer em voo os caças Gripen.

Este avião integra também componentes produzidos em Portugal pela OGMA, o que, na visão da Saab, reforça o potencial de cooperação industrial e operacional entre os três países caso Portugal venha a optar pelo Gripen E na futura substituição da sua frota de F-16.

 

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