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Lockheed Martin admitem produção de componentes do F-35 em Portugal



Os norte-americanos da Lockheed Martin admitem produzir em Portugal componentes do caça de quinta geração F-35, bem como fazer a sua manutenção, caso o Governo português escolha este avião para substituir os F-16. A empresa assinala, em entrevista à Lusa, que o programa de caças F-35 é uma “solução europeia”, com 25% das componentes da aeronave já produzidas em solo europeu, e que não existe apenas em powerpoints.

Uma reportagem da agência Lusa revela que nas instalações da Lockheed Martin, em Fort Worth, estado do Texas, a linha de produção do caça F-35, um dos mais avançados do mundo, estende-se por cerca de um quilómetro, com aproximadamente 200 aeronaves “estacionadas”, entre as que já estão montadas, e as que ainda só têm asas.

A dimensão faz jus ao ditado repetido pelos locais de que “tudo é maior no Texas”: alguns dos milhares de trabalhadores da empresa deslocam-se de bicicleta e a visita dos jornalistas portugueses convidados pela Lockheed Martin é feita num ‘buggie’ de golfe.

Entre estantes com milhares de peças, ou asas pintadas com primário verde antes do revestimento final, cada caça está numerado e identificado com uma bandeira referente ao seu destino: EUA, Alemanha, Canadá ou Coreia do Sul, por exemplo. É nesta linha de produção — de onde saem 156 caças ao ano – que a Lockheed Martin espera vir a projetar em breve uma bandeira portuguesa. Na corrida para substituir a frota nacional de F-16 estão também os suecos da SAAB, com os Gripen, e o consórcio europeu que inclui a Airbus e os seus Eurofighters Typhoon.

Enquanto o negócio não vê a luz do dia, a empresa norte-americana acena com a produção de componentes e a manutenção dos caças em Portugal: “É absolutamente possível”, garantiu à imprensa portuguesa Robert Weitzman, diretor de Desenvolvimento de Negócios Internacionais do F-35.

A Lockheed Martin tem estado em contacto com a Força Aérea portuguesa, adiantaram os responsáveis, mas ainda sem qualquer diálogo oficial com o Governo , que deverá rever a Lei de Programação Militar (LPM) este ano e incluir neste planeamento os novos caças.

Além desta possível produção de componentes, os norte-americanos já identificaram 16 potenciais projetos de parceria em Portugal com empresas e universidades ou centros de investigação, em áreas como co-produção, colaboração tecnológica, exportação, integração de cadeias de fornecimento e projetos conjuntos de investigação e desenvolvimento.

“Este é um investimento a longo prazo, de décadas, e uma capacidade crítica de dissuasão. Não há melhor plataforma para ficar à frente das ameaças hoje em dia e nas próximas décadas”, realçou Weitzman. Na pista de voo, Carlton “Puff” Wilson, piloto há 22 anos, está junto a um imponente F-35 modelo A, que parece saído do célebre filme ‘Top Gun’.

O seu revestimento “stealth”, em tom cinzento, salta logo à vista. Esta “pele furtiva” é aplicada à superfície da aeronave para torná-la quase indetetável por radares inimigos, permitindo superioridade operacional e maiores níveis de sobrevivência.

Se os suecos da SAAB argumentam que a diferença entre um caça de 4.ª geração, como os Gripen, e um de 5.ª, como o F-35, é meramente marketing, “Puff” rejeita e traça as diferenças, a começar pela “fusão de sensores”, que permite agregar informações e apresentá-las ao piloto, inclusive através de uma projeção na viseira do capacete.

Uma das diferenças notórias entre um Gripen-E e um F-35 é o posicionamento das armas: se num caça sueco é possível ver os mísseis encaixados nas asas, um F-35 tem as armas incorporadas internamente, ajudando à sua quase invisibilidade — apesar de também ter a capacidade de as dispor externamente e entrar no chamado “modo besta”.

A Lockheed tem utilizado o argumento da experiência no terreno como forma de convencer clientes como Portugal. Sobre os problemas que têm sido noticiados no que toca a atualização de ‘software’, num momento em que os F-35 estão em ação no conflito que opõe EUA e Israel ao Irão, os responsáveis afirmam que este é um “programa em melhoramento contínuo” e garantem “níveis elevados” de prontidão.

Caças norte-americanos F-35 são solução europeia que não existe só em “powerpoints”

A empresa norte-americana Lockheed Martin considera que o programa de caças F-35 é uma “solução europeia”, com 25% das componentes da aeronave já produzidas em solo europeu, e que não existe apenas em “powerpoints”.

“Há quem tenha ativos que nunca foram utilizados em situações reais. Há quem tenha algumas ideias que existem apenas em apresentações de «powerpoint». (…) Está em causa confiança. A mensagem não é «confiem em nós». A mensagem é «já provámos que conseguimos»”, disse à Lusa Nicholas Smythe, vice-presidente da Estratégia de Campanhas de Sustentação e Desenvolvimento de Negócios na Lockheed Martin.

O responsável falava em entrevista à agência Lusa, no âmbito de uma visita da imprensa portuguesa às instalações da empresa em Fort Worth, no estado do Texas, a convite da Lockheed, numa altura em que os norte-americanos concorrem com os suecos da SAAB (que produzem os caças Gripen) e o consórcio europeu que inclui a Airbus (caças Eurofighters Typhoon), para a substituição da esquadra nacional de F-16, já em fim de vida.

Em Portugal, de acordo com o ministro da Defesa, Nuno Melo, o processo oficial ainda não começou. Do ponto de vista militar, o general João Cartaxo Alves, agora chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), nunca escondeu a sua preferência pelos F-35.

O atual contexto internacional, contudo, traz outras variáveis a jogo: perante as sucessivas ameaças do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, de abandonar a NATO, a produção militar dentro da União Europeia é cada vez mais incentivada e defendida.

Recentemente, o Presidente da República e comandante supremo das Forças Armadas, António José Seguro, insistiu na necessidade de autonomia estratégica europeia em matéria de Defesa, mantendo os Estados Unidos da América como aliados, mas sem uma “lógica de subjugação”.

Por outro lado, a postura colaborante de Portugal em relação à utilização norte-americana da Base das Lajes, nos Açores, num momento de conflito com o Irão tem sido elogiada pelos EUA, que querem que o país fortaleça esta aliança com a compra de F-35.

Interrogado sobre se a Lockheed pode ser prejudicada por este contexto internacional, Nicholas Smythe foi taxativo: “Nós somos uma solução europeia”.

De acordo com o responsável, 25% das componentes desta aeronave já são produzidas em solo europeu, sendo que a Lockheed tem uma linha de montagem final e verificação em Cameri, Itália – além de outra no Japão.

O mesmo argumento foi utilizado por Chauncey McIntosh, vice-presidente e diretor-geral do programa F-35 Lightning II, que em entrevista à Lusa definiu este investimento como um “programa global” que “apoia a estratégia europeia” e tem potencial para criar postos de trabalho.

“Quando pensamos em como construímos um F-35, a parte dianteira da fuselagem, onde o piloto se senta, essa parte tem sido produzida na Finlândia. Construímos a secção central do avião, que agora é fabricada na Alemanha. Também construímos a parte traseira do avião, que é fabricada no Reino Unido», exemplificou McIntosh, numa entrevista que decorreu mesmo acima da enorme linha de produção dos F-35, que se estende por mais de um quilómetro.

Sobre os argumentos utilizados pela concorrente SAAB de que os F-35 representam um investimento significativamente superior, Smythe realçou que cabe a cada Governo fazer as suas escolhas para garantir a segurança nacional, mas considerou o programa “bastante acessível” e salientou que os seus custos têm baixado “significativamente nos últimos cinco anos”, sem especificar valores. “E a razão pela qual isso funciona deve-se às economias de escala”, insistiu.

Já 20 nações escolheram os F-35, 13 delas na Europa: Itália, Reino Unido, Países Baixos, Dinamarca, Noruega, Bélgica, Polónia, Finlândia, Suíça, Alemanha, República Checa, Grécia e Roménia. Para a Lockheed, o “sucessor lógico” para os F-16 são os F-35, esperando que o próximo país na lista seja Portugal.


 

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